Âmago

Wild flower por Aleksej Polyvyanyj



Às vezes, onde selvagem vento sopra,
há mais calmaria que tempestade.
Onde não há batimentos,
é que o sentimento pulsa de verdade.
Onde um sorriso acorda,
é que a dor aflora.

Por vezes, quando se cala
é quando mais se tem a falar.
Quando se chora,
é que o sorriso mais deseja brotar.
Às vezes, quando se vê,
é quando menos se quer enxergar.

Em alguns momentos,
quando dizem ser impossível,
é quando mais se quer alcançar.
Quando alguém se perde,
nem sempre quer se encontrar.

Quando a estrutura desaba,
nem sempre há forças para reconstruir.
Mas quando o mundo parece estar se desfazendo
é que se começa a perceber
que mesmo dentre pedras
mudas podem florescer.






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Carpete

      Naquela noite, o cansaço me vencera. Joguei as chaves sobre a mesa e depois me joguei ao sofá, sem a menor cerimônia. A costura do estofado incomodava um pouco... pinicava, mas quem quer saber disso quando se está em cacos? Eu precisava comprar um sofá mais confortável... O que eu disse? Eu, hein... há uma cama no andar de cima, sou mesmo um idiota...

       Silêncio.

      Ah, mas ainda tinha a mulher, aquela mulher que quase nunca me deixava dormir. Com ela não havia diálogo, ela não respeitava minha dor, minha tensão e, muito menos, meu cansaço.
Paciência.

      Oh, não... Lá vinha ela novamente, faceira, saltitante com aquele risinho vingativo que me tirava o pouco fôlego que me restava no peito. Lá vinha ela... na minha direção. Diabos! Desvie, desvie, desv... Até que chegou perto demais. Senti seu hálito em meu pescoço, pensei que me beijaria, mas apenas subiu os lábios e sussurrou algo em meu ouvido... Não me lembro de ter compreendido o que era, mas me lembro de ter-me arrepiado os pelos das costas como um gato. Deitara-se no chão, próxima a mim e começara a falar sobre trivialidades... trivialidades, ao meu ver. Falara demais; não um tagarelar irritante, mas à sua maneira de falar demais. Sua voz me era música aos ouvidos. Também não me lembro de nada do que dissera... mas, entenda, a forma como ela falava daquelas coisas, me arrepiavam ainda mais que seu hálito em meus ouvidos. O que era? Deixe-me tentar explica-lo... Era... a maneira como o ar lhe saía dos pulmões enquanto pronunciava suas palavras, a forma matreiramente preguiçosa com que sua voz lhe saía da boca, formando pausas que faziam-me concentrar-me em seu perfume... Era quase como se ela pausasse para exalar seu perfume. O perfume? Ah, aquele perfume... somente ela o possuía. Não era algo comprado por aí, não acredito que fosse. Era algo que provinha dela e só poderia provir dela. Um cheiro de chuva com frutas recém-colhidas e um torturante adocicado que me lembrava vinho. Era uma mistura de seus cabelos, pele e boca que exalavam aquele aroma absurdo. Era quase uma panaceia; curara meu cansaço. Então, esperei que aquela raposa recomeçasse a falar, decidi que não me conteria mais. Afaguei seus cachos dourados enquanto ela falava sem ao menos dar-se conta. E então, atirei-me ao seu encontro e ataquei com meu beijo mais lascivo, segurei sua cintura e...

      Merda! Acordei jogado de bruços no chão, beijando o carpete novamente, com a boca cheia de fios de camurça e pelos de gato. Eu deveria ter ido para a cama.






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Metrô

    Acordar cedo todos os dias, pegar conduções lotadas, chegar em casa completamente exausta, contas, problemas, responsabilidades... e aí percebemos que no fim das contas somos simplesmente mais alguém no fluxo do universo adulto. Mas e quanto à nossa forma jovem de ver o mundo? E quanto à criatividade que tínhamos? E quanto à nossa imaginação?
    Desde que assumi o compromisso da idade adulta de mergulhar de cabeça neste mundo gigante por mim mesma, comecei a ver certas coisas com mais intensidade. Ou talvez eu só tenha voltado a ver a vida como eu via antes.
    Eu sempre tive o hábito de tentar enxergar a poesia de tudo. Procurá-la, encontrá-la, absorvê-la e compartilhá-la. Afinal, é para isso que serve a poesia, não? Alimentar-se dela e alimentar a quem dela tem fome.
    Pegar o metrô lotado todos os dias nunca será algo divertido, mas eu criei um certo hábito perante isso. Não sei ao certo se criei, às vezes mais parece que eu apenas percebi que o tinha. Eu gosto de observar as pessoas. Não observar para julgar, reparar ou incomodar... gosto de observar simplesmente. Desde pequena sou uma pessoa muito observadora. Observadora antes de falante; e sei que às vezes vejo coisas onde quase ninguém mais vê. Eu vejo poesia.
    Quando entro no metrô e tenho a oportunidade de tomar um acento, eu gosto da ideia de poder ver rostos acima do meu. Gosto de erguer meus olhos e enxergar todo tipo de gente. Gosto de olhar nos olhos de algumas dessas pessoas e perceber o que elas transmitem com suas pupilas dilatadas, com suas lágrimas, com seus sorrisos misteriosos, com sua visão de quem parece estar só no meio de uma multidão. Olho para toda aquela gente, uma a uma, e fico me perguntando para onde estão indo. Fico me perguntando onde estarão no fim do dia, se estarão sãs e salvas no conforto de seus lares, se estarão se divertindo pelos bares e festas, se estarão nas tragédias dos noticiários do dia seguinte. Fico me perguntando o que aconteceu com aquela pessoa que puxou conversa comigo e que eu nunca mais vi.
    Uns dias atrás, num desses mais desmotivados em que a gente não está a fim de prestar atenção em nada, uma moça entrou no vagão e posicionou-se no meu campo de visão. Horário de pico, o metrô estava lotado como o habitual. Olhei para cima sem qualquer pretensão, e então meus olhos cruzaram os dela, apesar de os dela não terem notado os meus — e nem nada ao redor. Estavam absurdamente vermelhos, como os de quem recebe um golpe de areia; os cílios colados e úmidos; as pupilas guardando um segredo nos olhos profundamente negros. Ela fitava o chão. Os cabelos meio desgrenhados e roupas amarrotadas de quem se asseia sem vontade.
    Não era algo realmente de chamar a atenção, até porque não há nada de incomum em encontrar pessoas tristes no metrô, mas foi algo que me chamou a atenção. A dor daquela mulher, fosse o que fosse, era aparente, quase palpável. Eu pude sentir a perda em seus olhos. Ninguém mais parecia notá-la. Era uma manhã intensa e corrida como todas as outras, cheia de pessoas que imaginam não ter tempo para olhar umas para as outras.
    A mulher piscava poucas vezes, e quando o fazia, era bem lentamente. Ela, de pé, segurava uma bolsa sem muita firmeza. Parecia estar muito, muito distante dali. A certa altura o vagão dava solavancos inesperados que deixavam os passageiros ainda mais agitados e estressados por esbarrarem ou serem jogados uns contra os outros; o corpo daquela mulher desconhecida ia para lá e para cá, ameaçava cair, era empurrado, esbarrado por outras pessoas... mas ela não parecia se importar. Sua feição não se modificava, sua reação não mudava, ela não arriscava movimentos. Ela não se segurava e nem se apoiava em nada; uma das mãos repousava sobre a lateral do rosto.
    Então um homem apareceu por perto, um pouco à frente dela. Não sei dizer ao certo em que momento ele apareceu, isso escapou à minha percepção e meus olhos. O homem tinha uma grande e aparentemente pesada mochila presa ao peito. Ele então se virou um pouco para trás, em direção à mulher, sem parecer realmente notá-la, e baixou a mão até a altura de sua bolsa, tomando-a para si. Ela sequer ergueu o rosto, não se moveu, não piscou. Ficou apenas ali, movendo-se pelos solavancos do vagão agora sem seu único pertence: a bolsa. O homem agora tinha os olhos fechados — parecia dormir de pé —, tinha uma mochila no peito e uma bolsa feminina em uma das mãos.
    Após certo tempo, um acento desocupou-se à frente do homem. Então ele voltou-se para trás novamente, tomou a mulher desconhecida pela mão e a colocou no banco vazio. Ela caiu sentada pesadamente sobre o banco, como um montante de ossos e músculos abandonados; ainda com uma das mãos no rosto, o sofrimento vermelho estampado nos olhos.
    Lembro-me de estar muito cansada nesse dia, lutando contra o sono. Em algum momento fui vencida, e quando fui acordada pelo aviso de chegada do maquinista, já na última estação, as pessoas já estavam aglomeradas frente às portas e não havia mais ninguém sentada ao meu lado. Levantei-me, olhei os grupos de pessoas, olhei em volta, mas não encontrei a mulher em lugar algum. Ao longe, vi o rosto do homem de perfil. Ao saltar do vagão, eu ainda o vi caminhando para longe com sua mochila pesada, sozinho e sem a bolsa da tal mulher.
    Sozinha e com minha mochila pesada, segui meu próprio rumo pelo mundo adulto, onde a poesia é implícita, mas ainda existe em cada pequeno gesto.






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Dançando com a morte

                                                                            The tightrope walker, de Anna Moderska

A vida é o imaginário

Um imenso palco com cenário
Que muda a cada dia
Da alegria à melancolia
Da caminhada à corrida
Da volta à ida
Do sangue ao mel
Do mel ao fel.
A vida inteira é uma dança
Uma dança perigosa
Melindrosa
Em que nos movimentamos sobre a corda bamba
Do ballet ao samba
Na ponta dos pés.
O equilíbrio é o mais importante artifício
Logo abaixo um precipício
Sem volta
Sem vício.
Move-te com destreza
Com clareza
Com cuidado
Um passo em falso é o mínimo que precisa ser dado
Para que te venha a faltar sorte
E a corda bamba te empurre para a morte
Que vive no coração do precipício
Sem volta
Sem vício.
Lá de baixo ela te observa
Vigia-te sem reservas
Acompanha teus movimentos
Sopra sob teus pés
E aguarda que a queda aconteça em seu devido momento.
Avista tua queda ardentemente 
Saboreia-te com paixão
Consome-te docemente
Enquanto te desfazes na escuridão.






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Licença Creative Commons
O trabalho Dançando com a morte de Manoelle D'França está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição Não Comercial Sem Derivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível no blog Maphago.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença na área de contato deste blog.
· 22/01/2014 ·